Eu Sou AHF – Dra. Adele Schwartz Benzaken: Uma Médica que Redefiniu o Cuidado

In Brazil, Eu sou AHF Por Olivia Taney

Dra. Adele Schwartz Benzaken é a Diretora Médica Global Sênior da AHF. Sua história é a próxima da nossa série “Eu Sou AHF”, que apresenta funcionários, clientes e parceiros extraordinários que fazem o que é certo para salvar vidas todos os dias. 

Entrevistado por Diana ShpakPonto Focal de Gestão do Conhecimento, AHF Europa.

A Dra. Adele Schwartz Benzaken, Diretora Médica Global Sênior da AHF, é uma mãe dedicada de duas lindas filhas e um filho, uma avó orgulhosa de cinco netos e uma mulher cuja vida profissional tem sido dedicada à prevenção, ao tratamento e à saúde pública relacionados ao HIV/DST. 

No início da nossa conversa, a Dra. Adele compartilhou um momento emocionante de um reencontro familiar alegre. Uma filha havia chegado dos Estados Unidos, enquanto a outra viera de São Paulo para Manaus, no Brasil. Com a família reunida em casa, era evidente que o ambiente era repleto de calor humano e risos. 

Com raízes que se estendem por continentes e uma história marcada pela resiliência, a vida da Dra. Adele foi moldada tanto pela herança cultural quanto por um propósito. Nascida em Manaus, Brasil, no coração da floresta amazônica, ela cresceu carregando o legado de jornadas extraordinárias. Seu pai era um sobrevivente do Holocausto, originário de Viena, Áustria, e sua mãe vinha de uma família marroquina que havia migrado para a Amazônia. Essas histórias familiares de sobrevivência, migração, dignidade e perseverança se tornaram o alicerce silencioso da trajetória da Dra. Adele. 

Ela concluiu seus estudos de medicina em Curitiba e a residência no Rio de Janeiro, retornando posteriormente a Manaus, onde foi convidada a fundar uma clínica de DSTs. Com o surgimento do HIV, a clínica expandiu-se para abarcar a nova realidade, e a Dra. Adele iniciou o que se tornaria uma dedicação de toda a vida às pessoas que vivem à margem da saúde e da visibilidade.  

Seu primeiro grande projeto relacionado ao HIV focou em profissionais do sexo na cidade, refletindo um profundo compromisso pessoal em apoiar aqueles que eram frequentemente negligenciados ou julgados. Ela costuma se lembrar de como seu pai se manifestava veementemente contra a discriminação, alertando que o ódio contra um grupo nunca termina aí. “Meu pai sempre fez da luta contra a discriminação sua primeira regra de vida e me lembrava constantemente da importância de trabalhar com pessoas marginalizadas”, disse a Dra. Adele. Essa lição a acompanhou e ajudou a definir não apenas sua missão profissional, mas também a compaixão com que a cumpriu. 

Ao longo dos anos, a Dra. Adele tornou-se uma força pioneira na prevenção do HIV e na saúde pública no Brasil. Seu trabalho abrangeu desde profissionais do sexo e populações carcerárias até comunidades gays e outros homens que fazem sexo com homens, ajudando a apoiar a formação de organizações comunitárias em Manaus e no interior da Amazônia. Posteriormente, ela expandiu esse trabalho para comunidades indígenas, onde os desafios eram imensos: locais remotos, sem eletricidade, sem laboratórios e com acesso limitado à saúde.  

Um menino de uma comunidade indígena Yanomami ensina a Dra. Adele a beber água do rio.

Foi precisamente ali que a Dra. Adele ajudou a liderar esforços pioneiros para implementar testes rápidos de HIV e sífilis, tornando-se uma pioneira global em levar essas ferramentas a populações carentes. Seu trabalho de validação de testes rápidos de sífilis em comunidades indígenas recebeu reconhecimento da Organização Mundial da Saúde, enquanto o UNICEF homenageou suas contribuições para a construção de estratégias voltadas para a eliminação da transmissão vertical do HIV. 

O que torna a trajetória da Dra. Adele particularmente notável é que seu trabalho de campo jamais se dissociou da ciência. Paralelamente ao atendimento direto e ao desenvolvimento de programas, ela documentou e estudou consistentemente o que estava construindo, transformando a saúde pública prática em pesquisa operacional com impacto duradouro. Seus projetos resultaram em importantes publicações sobre intervenções com profissionais do sexo e sobre a implementação de testes rápidos para sífilis, que se tornaram o foco de sua tese de doutorado. Esse conjunto de evidências acabaria por contribuir para a transformação do sistema nacional de saúde do Brasil. “Não faço pesquisa apenas por fazer. Estou sempre pensando em como posso usar essa pesquisa para ajudar as pessoas ou para mudar políticas públicas”, afirmou a Dra. Adele. 

Em uma reunião crucial com a presença do Ministro da Saúde, a Dra. Adele se apresentou de forma simples, porém impactante. Ela era uma médica da Amazônia que trabalhava com testes rápidos para sífilis e, se funcionasse na Amazônia, disse ela, funcionaria em qualquer lugar do Brasil. Aquele momento, respaldado por anos de evidências, dedicação e visão, contribuiu para a incorporação dos testes rápidos para sífilis em todo o sistema público de saúde brasileiro. 

A trajetória da Dra. Adele continuou da liderança local ao impacto nacional e, posteriormente, global. Ela liderou o programa estadual, ingressou no Ministério da Saúde do Brasil e, por fim, tornou-se diretora do programa nacional de HIV. Foi durante sua atuação no Ministério da Saúde que a AHF entrou em sua vida. Quando a AHF precisou de medicamentos antirretrovirais para migrantes venezuelanos na Colômbia, a Dra. Adele ajudou a viabilizar a doação do Brasil. Essa primeira colaboração marcou o início de uma conexão muito mais profunda. 

Mais tarde, quando a AHF começou a trabalhar na região amazônica, a Dra. Adele viu uma oportunidade de transformar evidências em mudanças. Preocupada com a sobrecarga imposta a um grande hospital que atendia quase 15,000 pacientes, ela incentivou um estudo para demonstrar como o grande número de pessoas afetava a qualidade do atendimento. Com o apoio da AHF, a pesquisa ajudou a demonstrar a necessidade de descentralização do atendimento ao HIV e, com o tempo, novas unidades foram inauguradas (atualmente unidades apoiadas pela AHF Brasil), levando os serviços mais perto das pessoas. Para a Dra. Adele, isso refletia a maneira como ela sempre trabalhou, usando a pesquisa não apenas como um exercício acadêmico, mas como uma ferramenta para melhorar vidas e influenciar políticas públicas. 

Após deixar o Ministério da Saúde no início de 2019, a Dra. Adele foi convidada a se juntar à AHF. Em abril daquele ano, ela iniciou um novo capítulo que já dura sete anos. Hoje, como Diretora Médica Global Sênior da AHF, ela trabalha em mais de 50 países. O trabalho é exigente e frequentemente envolve viagens constantes, mas seu senso de propósito permanece inalterado. Ao longo de todas as etapas de sua carreira, a Dra. Adele continua guiada pela mesma convicção silenciosa de que a saúde pública deve sempre estar fundamentada na equidade, compaixão e justiça. 

Na AHF, o primeiro grande objetivo da Dra. Adele foi aprimorar a forma como os dados eram compreendidos e considerados confiáveis. Ela e a equipe global ajudaram a construir a confiança interna nos dados como uma ferramenta poderosa para ações baseadas em evidências, garantindo que as informações pudessem realmente servir às pessoas e aos programas. Ela também desempenhou um papel fundamental na expansão dos Centros de Bem-Estar da AHF, que oferecem testes e tratamento gratuitos para ISTs, ajudando a transformar uma importante visão da AHF em uma realidade adotada em todos os programas da AHF nos países. 

O Brasil eliminou recentemente a transmissão vertical do HIV, e a Dra. Adele desempenhou um papel fundamental nessa grande conquista, um marco na saúde pública e resultado de anos de trabalho cuidadoso e profundamente humano. Enquanto atuava no Ministério da Saúde do Brasil, ela integrou um esforço regional liderado pela Organização Pan-Americana da Saúde para desenvolver ferramentas e padrões que auxiliassem os países a avançar rumo à eliminação do vírus. 

“Mantenho viva a minha paixão. Às vezes, as pessoas não entendem por que é uma paixão. Mas é. O que nos motiva é também essa alegria e paixão pelo trabalho que fazemos. Sou muito apaixonada por direitos humanos, questões de gênero e populações vulneráveis. Meu foco é ajudar as pessoas, ser muito forte e muito humanista”, disse a Dra. Adele com um sorriso. 

Em 2023, a Dra. Adele recebeu a Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico do presidente brasileiro Lula. Uma das maiores honrarias do Brasil, concedida a cientistas, pesquisadores e instituições, tanto brasileiras quanto estrangeiras, que tenham dado contribuições significativas para o avanço da ciência, tecnologia e inovação. O reconhecimento celebrou seus muitos anos de dedicação à luta pela equidade em saúde. Segundo a Dra. Adele, também representou um reencontro com seus ideais utópicos e renovou sua motivação para continuar a persegui-los. Como ela mesma afirma, “Nada disso teria acontecido” se ela “não tivesse tido o imenso privilégio de trabalhar com pessoas incrivelmente valiosas e dedicadas que compartilham sua paixão por mudar o mundo, assim como aconteceu na AHF”. 

Ao final da nossa conversa, perguntei à Dra. Adele qual o sentido da vida para ela. Sua resposta revelou algo essencial sobre quem ela é. Para a Dra. Adele, o sentido da vida reside no equilíbrio entre família e carreira, entre a alegria de um lar cheio e a concentração tranquila de um trabalho significativo. Como mulher, mãe, avó, esposa e líder, ela continua a seguir em frente com a mesma graça que marcou sua trajetória: um profundo amor pelas pessoas, uma paixão por servir e uma vida guiada tanto pelo coração quanto pela dedicação. 

A história da Dra. Adele é uma história de ternura e força, ciência e serviço, coragem e humanidade. É a história de uma mulher cuja trajetória profissional foi guiada por um profundo senso de propósito e cuja dedicação à luta contra o HIV impactou inúmeras vidas no Brasil e em diversos países. 

Talvez esta história, repleta de dedicação e paixão, inspire outros a olharem mais profundamente para as suas próprias vidas e encontrarem o caminho que realmente lhes pertence. Porque quando conhecemos pessoas como a Dra. Adele e vemos o brilho nos seus olhos quando falam sobre o seu trabalho, lembramo-nos de que uma verdadeira vocação não é apenas algo que fazemos, mas algo que nos ilumina por dentro.

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