Radheshyam Shrestha é o Coordenador de Programas e Marketing da AHF Nepal. Sua história é a próxima da nossa série “Eu Sou AHF”, que apresenta funcionários, clientes e parceiros extraordinários que fazem o que é certo para salvar vidas todos os dias.
Nasci e cresci em uma pequena aldeia no Nepal, sem instalações de saúde e sem acesso a transporte. Chegar ao hospital mais próximo exigia uma caminhada de duas horas e, com muita frequência, crianças perdiam a vida para doenças que eram totalmente evitáveis e tratáveis. Quando ficávamos doentes, dependíamos de medicamentos comprados em uma pequena farmácia local que não tinha profissionais de saúde treinados nem um farmacêutico qualificado.
Desde criança, sentia um forte chamado para me tornar profissional de saúde e servir comunidades como a minha. Após concluir meus estudos, busquei formação na área da saúde. Durante meu treinamento, passei um mês no Hospital de Doenças Infecciosas, onde testemunhei o estigma e o tratamento negativo enfrentados por pessoas vivendo com HIV que estavam internadas. Essa experiência me comoveu profundamente e fortaleceu meu compromisso de trabalhar no setor de HIV, onde eu pudesse contribuir para um atendimento mais humanizado e equitativo.
Após concluir meu treinamento de Auxiliar de Saúde em 2004, iniciei minha carreira no Hospital Bir como Auxiliar Médico. Em maio de 2005, migrei para o setor de ONGs, trabalhando com pessoas que usam drogas injetáveis e pessoas vivendo com HIV. Naquela época, o tratamento do HIV no Nepal era marcado pelo medo e pelo estigma. Até mesmo os profissionais de saúde relutavam em tocar em pessoas vivendo com HIV, e muitos pacientes morriam sem receber atendimento oportuno ou adequado.
Um incidente permanece profundamente gravado na minha memória. Uma pessoa vivendo com HIV foi trazida à nossa clínica em estado crítico e precisava urgentemente de internação hospitalar. Vários hospitais se recusaram a interná-la, e ela acabou sendo levada para a clínica da nossa ONG. Como a única profissional de saúde presente, prestei os melhores cuidados possíveis. Seu quadro clínico inicialmente melhorou, mas na terceira noite, recebi uma ligação informando que sua saúde havia piorado repentinamente. Aconselhei que ela fosse transferida imediatamente para um hospital público. Na manhã seguinte, corri para lá, apenas para descobrir que ela já havia falecido.
Fiquei devastada. Exames básicos que deveriam ter sido feitos após a internação nunca foram realizados, e nem mesmo os cuidados adequados após a morte foram providenciados. Discuti com a equipe do hospital e voltei para casa em lágrimas, atormentada por uma pergunta: até quando pessoas vivendo com HIV continuarão morrendo assim?
Naquela época, no Nepal, os medicamentos antirretrovirais (ARVs) estavam disponíveis apenas para um número limitado de pessoas. Os pacientes tinham que esperar por uma cota e, muitas vezes, somente após a morte de uma pessoa, outra se tornava elegível para o tratamento. O acesso até mesmo a medicamentos básicos que não fossem ARVs era uma luta diária.
A esperança surgiu em 2008, quando a AHF chegou ao Nepal. Em 2009, mudanças visíveis começaram a surgir e os pacientes passaram a receber tratamento com dignidade. A partir daquele momento, eu soube que queria trabalhar com a AHF.
Em 2012, essa oportunidade surgiu quando me juntei à AHF e fui designada para o Centro de Terapia Antirretroviral (TARV) de Butwal como Coordenadora de TARV. A AHF estava colaborando com o Governo do Nepal para fortalecer os serviços de HIV, mas na época havia pouco mais do que um prédio — nenhum médico, conselheiro, enfermeiro ou educador de pares treinado. Embora existissem instalações laboratoriais, os pacientes não conseguiam acessá-las devido ao estigma e à discriminação.
Minha prioridade imediata foi garantir a disponibilidade de profissionais de saúde capacitados. Quando os médicos se mostraram relutantes em viajar para o treinamento, propus realizá-lo localmente. Com o forte apoio do meu supervisor e o comprometimento de especialistas em HIV de todo o Nepal, conduzimos com sucesso um treinamento de seis dias para 20 participantes, incluindo médicos, enfermeiros e paramédicos. Tornou-se um dos primeiros treinamentos em TARV realizados fora de Katmandu.
Durante meu período em Butwal, uma visita de representantes da OMS e do governo me marcou profundamente. Eu havia apresentado os protocolos de prevenção e tratamento da AHF, incluindo testes e tratamento comunitários, bem como o uso do tenofovir como tratamento de primeira linha. Quando um médico da OMS questionou a viabilidade dessa abordagem no Nepal, respondi que não só era viável, como essencial. Hoje, ver essa abordagem adotada globalmente me enche de orgulho e confirma a visão de futuro da liderança da AHF.
Quando comecei a trabalhar nesta área, pouquíssimas pessoas procuravam fazer o teste de HIV. A maioria só o fazia depois de desenvolver infecções oportunistas graves, principalmente devido à falta de conhecimento sobre detecção e tratamento precoces. Hoje, as infecções oportunistas são muito menos comuns e a mortalidade entre pessoas vivendo com HIV diminuiu significativamente. Esse progresso reflete a expansão dos serviços de testagem até mesmo para as comunidades mais remotas e carentes, garantindo diagnóstico precoce e tratamento oportuno.
Atualmente, como Coordenadora de Programas e Marketing da AHF Nepal, sinto imensa satisfação ao ver como os serviços de HIV se tornaram acessíveis. Esse progresso não teria sido possível sem o apoio e a forte parceria da AHF no Nepal.
Fora do trabalho, recarrego as energias passando tempo com minha família. Estar com eles me lembra do propósito do meu trabalho. Também gosto de caminhar, ouvir música e participar de atividades comunitárias e culturais. Esses momentos simples me mantêm com os pés no chão e me permitem retornar ao trabalho com energia renovada.
Um dia, espero conhecer o presidente da AHF, Michael Weinstein, apertar sua mão e agradecê-lo por sua coragem, visão e pelo incentivo que continua a dar a nós que estamos na linha de frente.













