
Coveiros usam trajes de proteção enquanto trabalham no enterro de Tereza Santos, que morreu em decorrência da doença do coronavírus (COVID-19), no cemitério Vila Formosa, em São Paulo, Brasil, em 9 de março de 2021. REUTERS/Carla Carniel.
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A crise humanitária que se desenrola no Brasil como consequência da má gestão da resposta à COVID-19 é mais um lembrete contundente da implacável propensão da realidade em cobrar um alto preço em vidas e meios de subsistência sempre que os políticos se recusam a encarar os fatos em uma emergência de saúde pública. A AIDS Healthcare Foundation (AHF) defende que a saúde pública seja priorizada no Brasil.
Com o terceiro maior número de casos de COVID-19 no mundo, o panorama atual para o Brasil é sombrio; contudo, não estamos obrigados a manter esse rumo. Aliás, temos a obrigação de mudar de rumo antes que a pandemia ceife milhares de vidas brasileiras.
A seguir, apresentamos uma breve visão geral de como chegamos a este ponto e o que deve ser feito para colocar o país no caminho da recuperação e ajudar a reduzir o impacto de forma mais ampla entre os países da América Latina, em uma região com populações altamente móveis.
No Brasil, o número de casos da pandemia ultrapassa 10.5 milhões e o de mortes, quase 270,000 mil. Em um país de 212 milhões de habitantes, com um Sistema Único de Saúde robusto e vasta experiência na realização de campanhas de vacinação em âmbito nacional, a atual situação da SARS-CoV-2 é simplesmente incompreensível e inaceitável.
As negociações com empresas para o fornecimento de vacinas e outros insumos médicos essenciais sofreram atrasos excessivos e, até o momento, o Brasil está longe de garantir vacinas suficientes para toda a população. Além disso, a constante disseminação de mensagens contraditórias vindas de cima para baixo só serviu para confundir as comunidades e agravar a situação.
O Brasil conseguiu, até o momento, obter apenas 14.7 milhões de doses de vacinas contra a COVID-19, o suficiente para vacinar menos de 4% da população. Essa pequena quantidade foi obtida graças aos institutos de pesquisa Butantan e Fiocruz, que inicialmente importaram 8 milhões de doses da China e da Índia, e à produção nacional de 6.7 milhões de doses. Apesar da grande capacidade de produção farmacêutica nacional, a fabricação local de vacinas contra a COVID-19 tem sido prejudicada por múltiplos obstáculos impostos à importação de princípios ativos farmacêuticos (API).
Em decorrência de atrasos e decisões contrárias às boas práticas de saúde pública, o Brasil perdeu o acesso ao equivalente a cerca de 316 milhões de doses de vacina, considerando as quantidades oferecidas pela COVAX e pela Pfizer, o suficiente para vacinar aproximadamente 78% da população. Isso teria dado à Fiocruz e ao Butantan tempo suficiente para produzir localmente o restante das vacinas e imunizar toda a população.
À beira do colapso sob a pressão de milhões de pacientes em estado crítico, o sistema de saúde precisa lidar com a escassez de oxigênio, a falta de leitos hospitalares, profissionais da linha de frente exaustos ou doentes e a perspectiva iminente de mais uma onda de infecções — desta vez com uma nova variante do SARS-CoV-2 que surgiu recentemente em Manaus, no Amazonas.
É imprescindível que os esforços de vacinação sejam acelerados e direcionados estrategicamente, priorizando as comunidades mais afetadas. Nossa única chance de superar e combater o perigo das novas variantes do SARS-CoV-2 é vacinar o máximo de pessoas possível no menor tempo possível.
Considerando a oferta limitada de vacinas e a natureza ondulatória dos surtos de COVID-19 em diferentes comunidades, as decisões sobre quem vacinar, incluindo onde e quando, devem ser embasadas e orientadas por epidemiologistas, imunologistas, especialistas em doenças infecciosas e equipes técnicas do Programa Nacional de Vacinação. Até que a oferta de vacinas acompanhe a demanda nacional, distribuir as doses disponíveis por todo o país não será tão eficaz quanto concentrar os esforços em áreas críticas como Manaus e em populações prioritárias, como profissionais de saúde da linha de frente e idosos.
A comunidade internacional deve unir-se ao apelo para que os líderes do Brasil façam todo o possível para garantir que o país tenha vacinas suficientes para toda a população – isso significa estar disposto a negociar, colaborar e se engajar com parceiros internacionais e iniciativas globais como a COVAX, além de aumentar os investimentos de capital e recursos humanos na capacidade de produção nacional de vacinas.
No entanto, a vacinação por si só não será a solução definitiva para a COVID-19. Mesmo que o Brasil consiga obter doses suficientes de vacina para toda a população nos próximos meses, considerando a extensão territorial e o isolamento de algumas regiões do país, levará um tempo considerável para vacinar uma parcela suficientemente grande da população a fim de controlar a COVID-19. A campanha de vacinação acaba de começar e está cada vez mais evidente o risco de novas cepas do coronavírus conseguirem burlar os anticorpos produzidos pelas vacinas atuais, reduzindo sua eficácia.
Portanto, além de desenvolver uma campanha de vacinação robusta, há uma necessidade urgente de uma campanha nacional de prevenção, que combine esforços nos níveis do Sistema Nacional de Saúde, dos governos federal, estaduais e municipais. Esses governos devem se comprometer a incentivar, promover e exigir a adesão a medidas de controle de infecção em saúde pública baseadas em evidências.
O uso consistente e universal de máscaras bem ajustadas continua sendo absolutamente essencial para impedir a propagação da COVID-19, principalmente porque é a medida mais eficaz e imediata que as pessoas podem tomar por conta própria para se protegerem e protegerem os outros. O uso de máscara deve ser acompanhado de lavagem rigorosa das mãos e distanciamento social. Coletivamente, esses esforços de prevenção, juntamente com as orientações sobre diagnóstico, tratamento e vacinação, devem ser padronizados sob a supervisão de uma força-tarefa nacional.
Infelizmente, até o momento não existe cura comprovada pela ciência nem uma "pílula mágica" para a COVID-19, e o pensamento mágico não fará a pandemia desaparecer. Tudo o que podemos fazer é confiar na nossa determinação em encarar a dura realidade do momento e nos comprometermos com uma longa e difícil luta, utilizando as ferramentas baseadas em evidências que temos à disposição: compaixão pelo próximo, medidas de controle e prevenção da infecção, vacinas e confiança na ciência.












